Evento reuniu moradores, pesquisadores e representantes do poder público para discutir cozinhas solidárias, alimentação escolar, segurança pública e o direito à alimentação
Um novo e importante capítulo foi escrito na luta pela soberania alimentar dos moradores do Conjunto de Favelas da Maré no dia 12 de junho de 2026. O evento Discutindo Segurança Alimentar na Maré reuniu cerca de 45 pessoas, entre moradores, pesquisadores e autoridades, no Centro de Artes da Maré, na Nova Holanda, numa programação que incluiu o debate “(In)segurança alimentar e (In)segurança Pública no Rio de Janeiro”, pela manhã, e o lançamento da pesquisa Redes de alimentação, economy e cuidados na Maré: pequenas diferenças que fazem toda a diferença à tarde.
Na abertura, a mesa de debate organizada pela Redes da Maré em parceria com o mandato da vereadora Maíra do MST e a Comissão Permanente de Segurança Alimentar e Nutricional da Câmara Municipal do Rio de Janeiro rendeu encaminhamentos à Prefeitura do Rio. A micro-escuta e conversa entre Maíra do MST, Mariana Aleixo (Redes da Maré), Júlio Mendes (Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional do Rio, CONSEA/RJ) e Carlos Nhanga (Instituto Fogo Cruzado) foram firmadas sugestões ao governo municipal, como a divulgação de um mapa com equipamentos de segurança alimentar e nutricional espalhados pela cidade, como cozinhas e restaurantes populares, e o monitoramento do número de estudantes que deixam de se alimentar em dia de operações policiais em favelas e periferias, por conta do fechamento de escolas e creches.
Segundo Júlio Mendes, presidente do CONSEA, as sugestões e análises servirão como instrumentos de reivindicação políticas na área de segurança alimentar, já que as ações do poder público na segurança pública, frequentemente, afetam a alimentação de milhares de crianças e adolescentes, que dependem das unidades escolares para garantir suas refeições.
“É importante estar na Maré porque é aqui que as operações policiais mais acontecem, e, nesses dias, milhares de estudantes ficam sem comer. A gente não pode naturalizar crianças e adolescentes não terem o seu direito à alimentação adequada, sob a justificativa de que essa é a única estratégia da segurança pública”, disse Júlio.

Participantes do evento se reuniram no Centro de Artes da Maré para debater os desafios da segurança alimentar e fortalecer estratégias de soberania alimentar no território Foto: Douglas Lopes
Além dos encaminhamentos firmados, houve outras propostas decorrentes de quatro grupos de discussão temáticos, formados durante o debate público. No total, mais de 40 pessoas estavam reunidas para falar sobre abastecimento, logística e acesso à alimentação; soberania alimentar e violência; desigualdade e alimentação escolar; e pesquisa e produção de dados. Das trocas de ideias, surgiram sugestões relacionadas ao subsídio financeiro para alimentar famílias afetadas em dias de operação, criação e fortalecimento de hortas comunitárias e escolares, e a remuneração de cozinheiras comunitárias da Maré.
A vereadora Maíra do MST lembrou que, hoje, os mecanismos de controle social são a base para a garantia de funcionamento e o financiamento das estratégias territoriais para a soberania alimentar, como exemplo, a Cozinha Solidária Bira Carvalho e o Buffet Maré de Sabores, responsáveis por produzir 70 mil refeições entre 2022 e 2025, alimentando pessoas em vulnerabilidade alimentar no território da Maré. Segundo a vereadora, iniciativas como essas ainda carecem de reconhecimento formal e incentivo público.
“A política pode e deve estar a serviço do povo, numa construção coletiva. A população da Maré e a população de favela da cidade do Rio de Janeiro não aguentam mais lidar com a ausência de orçamento, com a ausência de políticas públicas no âmbito da segurança alimentar”, reforçou a parlamentar, que apresentou iniciativas atuais de fomento à soberania alimentar com as quais está envolvida, como por exemplo, o Projeto de Lei nº 128/2025, referente à criação do Programa Merenda nas Férias.

O encontro reuniu moradores, pesquisadores e representantes do poder público para discutir políticas e ações voltadas à garantia do direito humano à alimentação adequada Foto: Douglas Lopes
Na parte da tarde, pesquisadores da Redes da Maré e do Núcleo de Pesquisas em Cultura e Economia (NuCEC) da UFRJ apresentaram os resultados da primeira investigção sobre segurança alimentar feita em conjunto com a Redes da Maré. A pesquisa "Redes de alimentação, economia e cuidados na Maré: pequenas diferenças que fazem toda a diferença" deu destaque para as relações entre as formas de adquirir, preparar, conservar e, ainda, vender alimentos no Conjunto de favelas do território.
O tema aprofundou as reflexões iniciadas durante a manhã. As redes de solidariedade entre moradores e empreendedores evidenciadas pela pesquisa revelam-se essenciais para garantir a segurança alimentar da Maré. Os achados também reforçam que as residências mais isoladas, que não têm parentes ou amigos próximos, enfrentam mais dificuldade para lidar com crises econômicas ou sanitárias, como ocorreu durante a pandemia de COVID-19. Os pesquisadores destacaram que essas pessoas em isolamento acessam menos políticas de combate às desigualdades, como o Bolsa-Família, e outras ações de doação de alimentos.
“Essa pesquisa deixa de legado a ideia de que para pensar alimentação é preciso pensar nas relações comunitárias também. As casas são pontos de circulação do alimento e da refeição. Essa característica influencia a sustentabilidade ou as dificuldades do território”, reforçou a professora Eugênia Motta, que coordenou a pesquisa em conjunto com a Redes da Maré.

Representantes da Redes da Maré, do Consea-RJ, da UFRJ e de organizações parceiras participaram da programação que debateu segurança alimentar e apresentou uma pesquisa inédita sobre o território Foto: Douglas Lopes
Maré de Sabores e cozinhas solidárias no enfrentamento à insegurança alimentar
A pesquisa valoriza o trabalho realizado pela Redes da Maré desde 2010, a partir da criação do Maré de Sabores, que oferece uma formação profissional ampla em gastronomia para mulheres do território. O projeto, que funciona desde 2016, é sediado na Casa das Mulheres da Maré e alia qualificação técnica, desenvolvimento humano e geração de renda a partir da alimentação.
Em 2020, com a pandemia de COVID-19, as ações foram ampliadas para atender o aumento da insegurança alimentar. No primeiro ano, com a criação da campanha Maré diz NÃO ao Coronavírus, foram distribuídas cestas básicas e kits de limpeza para 17.648 famílias, além de 65 mil refeições destinadas à população em situação de rua. Desde então, o trabalho de entrega de cestas básicas e refeições permanece, aliado à construção da Cozinha Solidária Bira Carvalho e ao desenvolvimento de pesquisas, a partir da Frente de Segurança Alimentar. As atividades articulam diferentes iniciativas da Redes da Maré: o Eixo Direito à Saúde, a Casa das Mulheres e o centro de convivência para pessoas em situação de rua, Espaço Normal. Esse trabalho em conjunto com a população demonstra a importância da produção de dados que sejam capazes de traduzir a densidade social do Conjunto de favelas da Maré.
O evento Discutindo segurança alimentar na Maré proporcionou novas formas de enxergar a segurança alimentar no território, tratando de uma união de temas que, normalmente, são falados de maneira separada. Deu corpo, a partir da experiência, ao efeito cascata da privação de direitos: na medida em que um deles é negado, outros prejuízos vêm em conjunto. Ressaltou o valor das iniciativas locais para a soberania alimentar, e teve como resultado ações e conversas compartilhadas, entre moradores, organizações do território e do poder público.
Também colocou a Maré no centro de debates e decisões que impactam os moradores de dentro e fora dos territórios de favela, falando sobre o direito à alimentação da forma como deve ser visto, ou seja, coletivamente.
“Foi um dia bem rico, com muita troca. A gente tá muito feliz com o resultado do evento, que foi muito importante, não só pra gente mostrar para o poder público e para sociedade o que a Maré ainda precisa para garantir a soberania alimentar do território, mas também para a gente lembrar das potencialidades que existem aqui dentro”, afirmou Patrícia Ramalho, coordenadora dos projetos de segurança alimentar da Redes da Maré.
TODOS OS DIREITOS RESERVADOS @ 2026 REDES DA MARÉ - Associação Redes de Desenvolvimento da Maré
As imagens veiculadas neste site tem como objetivo divulgar as ações realizadas para fins institucionais. Entendemos que todas as fotos e vídeos têm o consentimento tácito das pessoas aqui fotografadas / filmadas, mas caso haja alguém que não esteja de acordo, pedimos que, por favor, entre em contato com a Redes da Maré para a remoção da mesma (redes@redesdamare.org.br).