O CliMaré é um projeto de pesquisa e ação comunitária que investiga os impactos do calor extremo na saúde e no cotidiano da Maré, promovendo educação ambiental e propostas de soluções locais.
A pesquisa parte de problemas comuns no território, como altas temperaturas, umidade, mofo e má qualidade do ar. A proposta é entender onde esses problemas são mais graves, quem é mais afetado e quais soluções podem ser aplicadas nas moradias.
Dez jovens da Maré atuam como pesquisadoras e agentes mobilizadoras climáticas. Elas vivem em diferentes localidades e têm formações em áreas como biologia, ciências da natureza, filosofia, artes e serviço social. Participam da coleta de dados, das atividades com moradores e das formações do projeto.
O CliMaré dá continuidade ao trabalho da Redes da Maré de produzir dados sobre o território na área socioambiental. As pesquisas e informações ajudam a dimensionar problemas, orientar ações e cobrar políticas públicas eficazes.
As mudanças climáticas tornaram o calor extremo uma ameaça cada vez mais séria para a saúde. Um estudo baseado em dados de 326 cidades de nove países latino-americanos revelou que cerca de 6% das mortes em ambientes urbanos estão associadas ao calor; a mesma pesquisa demonstra que, em dias de calor intenso, cada aumento de 1°C na temperatura ambiente está associado a mais 5,7% de mortes gerais. A Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro estima que os dias em que o calor é igual ou superior a 40°C por quatro horas ou mais estão associados a um aumento de 50% na mortalidade por doenças como hipertensão, diabetes e insuficiência renal entre idosos.
Em territórios de favela, os impactos podem ser ainda mais graves. A maioria das casas têm pouca ventilação e concentram materiais que retêm calor. As áreas verdes são praticamente inexistentes e há uma concentração de materiais como concreto. Além disso, muitas famílias convivem com problemas de infiltração e mofo, o que afeta a respiração e agrava doenças como asmas e alergias. Em fevereiro de 2025, quando a cidade registrou 44°C, medições no asfalto da Rua Principal, na Nova Holanda, chegaram a 61°C e dentro da cozinha de um comércio local chegou a 82°C.
(Referências)
1. KEPHART, Josiah L. et al. City-level impact of extreme temperatures and mortality in Latin America. Nat Med 28, 1700–1705 (2022). https://doi.org/10.1038/s41591-022-01872-6.
2.Centro de Inteligência Epidemiológica, da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro
O CliMaré pesquisa a relação entre calor, conforto térmico, qualidade do ar, umidade e saúde dos moradores, considerando os diferentes tipos de habitação da população da Maré.
O projeto realizou a instalação de 24 sensores em residências da Maré para colher dados quantitativos, medindo temperatura, umidade e qualidade do ar. Também foram aplicados mais de 1.600 questionários sobre calor, saúde e características estruturais das residências do território, que foi dividido em quatro áreas distintas, segundo o padrão construtivo e características morfológicas da habitação.
A pesquisa incluiu rodas de conversa e outras atividades de escuta dos moradores e profissionais do território. Em junho de 2026, por exemplo, pesquisadoras do CliMaré se reuniram com Agentes Comunitárias de Saúde que trabalham em diferentes pontos da Maré. O encontro ajudou a identificar áreas mais quentes e grupos mais afetados pelo calor.
O CliMaré segue uma metodologia já usada pela Redes da Maré em outros projetos socioambientais: formação, diagnóstico e intervenção.

As agentes climáticas tiveram uma formação teórica durante oito meses e também participaram de aulas, oficinas e visitas técnicas sobre mudanças climáticas, saúde, qualidade do ar, fungos, conforto térmico e soluções ambientais.
Em 2026, o grupo visitou, entre outros, o Núcleo de Materiais e Tecnologias na Construção Sustentável (Numats) da UFRJ, o Laboratório de Micologia da Fiocruz, o Centro de Pesquisa da L’Oréal e o Insper, em São Paulo.
As visitas permitem acompanhar pesquisas e tecnologias inovadoras que podem oferecer caminhos para soluções dos problemas encontrados na Maré.
A etapa de diagnóstico reúne dados dos sensores, questionários, visitas às casas e conversas com moradores.
Essas informações ajudam a localizar os problemas e entender sua intensidade. Também mostram como o calor, a umidade e a qualidade do ar afetam de maneira desigual grupos e regiões diferentes.
A pesquisa é feita com participação dos moradores. As agentes fazem perguntas, escutam relatos e levam as pautas para o território.

Depois do diagnóstico, o projeto testa soluções para problemas encontrados nas casas.
O destaque é um revestimento feito com cimento e serragem de madeira, desenvolvido em laboratório pelos pesquisadores do Numats/UFRJ. O material tem potencial para controlar a umidade, reduzir o calor dentro das residências e, consequentemente, melhorar o bem estar dos moradores.
A tecnologia está em teste em três casas da Maré: duas no Conjunto Esperança e uma em Rubens Vaz, onde já existe o telhado verde, fruto do projeto Ecoclima. O acompanhamento permitirá avaliar seus efeitos em condições reais, porque, até hoje, o material só foi testado em escalas menores.
Para a Redes da Maré, a solução não começa com a instalação de um equipamento.
A metodologia do CliMaré parte da formação das pesquisadoras e do diagnóstico do território. Só depois são definidas as intervenções.
Esse processo ajuda os moradores a reconhecerem problemas ambientais que fazem parte do cotidiano. Também produz informações que podem orientar ações da própria Redes e cobrar respostas do poder público.
A experiência do projeto pode contribuir para outros territórios de favela. Cada lugar, porém, precisa produzir seus próprios diagnósticos e adaptar as soluções às suas condições.
Formação. Diagnóstico. Intervenção.
Essa é a metodologia que orienta o CliMaré.


As agentes participam de atividades dentro e fora da Maré.
No Numats/UFRJ, conheceram a produção e as etapas de padronização do revestimento que atualmente encontra-se em fase de instalação e teste em residências do território. Na Fiocruz, tiveram contato com pesquisas sobre identificação e classificação de fungos em moradias. Nas rodas de conversa, ouviram moradores e profissionais de saúde.
Essas atividades ajudam a relacionar o conhecimento técnico aos problemas encontrados nas residências da Maré.
“Um dos objetivos do CliMaré é contribuir para a formação das agentes pesquisadoras, e momentos como esse ampliam a formação de maneira prática e aplicada, além de fortalecer parcerias e contribuir para o desenvolvimento do projeto.”
Tainá Neves, coordenadora do CliMaré

A atividade registrada integra as rodas de conversa realizadas pelas agentes climáticas com públicos do território, entre eles Agentes Comunitários de Saúde.
Moradores da Maré participaram das diferentes etapas da pesquisa.
A participação incluiu resposta aos questionários, recebimento dos sensores em casa, rodas de conversa, oficinas, teste de revestimento em residências e outras atividades do projeto.
Os dados reunidos ajudam a entender como calor, umidade e qualidade do ar afetam diferentes partes da Maré.
Contato: eixodusa@redesdamare.org.br
Instagram: @redesdamare
Coordenação do projeto
Fase I - Rian de Queiroz
Fase II - Tainá Neves
Coordenação de formação
Andrea Barreto dos Santos da Rocha
Coordenação de campo
Kátia do Nascimento Lopes
Agentes climáticas
Anna Carolina da Silva Fraga
Bruna Julia Pereira Nazario
Camila Costa da Silva
Carmen Luzia Oliveira Pínto
Ericka Prado Lima dos Santos
Karina Braga de Souza
Luara de Lima Carnaúba
Mayara dos Santos de Oliveira
Raquel Marreiro Rodrigues da Silva
Rute da Silva dos Santos
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